sábado, 24 de setembro de 2022

Psicologia Das Multidões


   Numa certa manhã, o povo começou a ajuntar muitos curiosos, diante da vitrine de um estabelecimento comercial, em Recife.

     O primeiro transeunte chegou, parou, olhou, involuntárias displicente. O segundo deteve, se para ver o que o primeiro estava olhando. Veio o terceiro, atraído pela atitude dos dois. 

   Outros foram chegando, para verem o que chegara primeiro o que havia na vitrine, e até ficavam nas pontas dos pés, tamanho era a curiosidade. De súbito, um dos que não estava enxergando absolutamente nada, indagou, aflito: __mas, afinal, que é, gente?

   ___ É um desaforo! __informou um, que não tinha nada a dizer.

   E para dizer alguma coisa;

   ___ É um mapa de São Paulo, assinalando a posição das Forças Federais. Pelo que se vê no mapa, os paulistas estão perdendo terreno.

   ___ É, mas é um insulto a Pernambuco!

  ___ Exclamou alguém. A essas palavras, um dos que não tinha visto nada, gritou:

   __ Fora o mapa! Quebre a vitrina! Rasque o mapa!

   O dono do estabelecimento, mandou arriar com estrondo a porta de ferro, protegendo com ela o vidro do mostruário. A multidão já se achava, porém, exaltada. Exaltada r acrescida. A rua estava cheia, repleta de povo, do qual subia um barulho de oceano batido do vento.

 __Fora o reacionário! ___gritava alguns.

 A Policia, avisada, ocorreu, para proteger a propriedade do dono do estabelecimento. O povo queria uma reparação, e a Polícia deveria forçar o comerciante a dar uma satisfação a multidão ali amontoada, pois elas estavam exigindo.

 Um oficial desceu do seu cavalo e penetrou dentro da livraria, e pediu que o comerciante desse uma informação sobre o que estava acontecendo, e porque havia uma multidão parada em frente ao seu estabelecimento, todos exaltados.

 __Não sei, senhor Capitão; juro que não sei. Eu tinha colocado um mapa de São Paulo na vitrine, mostrando os pontos do Estado conquistados pelas armas Federais.

 E não compreendo o motivo de tanta indignação.  Veja, o senhor mesmo, o mapa que se achava em exposição.

  O oficial examina a carta geográfica, e não vê nada demais. Toma-a nas mãos, e chega à porta. Desenrola-a, como se faz com a Verônica na procissão do Senhor Morto, para que os presentes indiquem a particularidade porventura existente, ofensiva a dignidade pública.

  Mais os que ali estavam protestando em massa ainda não tinham visto o mapa, e os que o tinham visto já tinham ido embora. Todos olhavam a grande folha aberta, e não enxergavam nela qualquer motivo para gritos sediciosos que estavam soltando há pouco. Afinal, um encontrou um pretexto.

 ____ É um desaforo_ gritou, com a alegria de Arquimedes descobrindo o peso dos  corpos submersos.   ____ É um desaforo!

 E explicando –se:

 ___ Os pontos ocupados pelas Forças Federais estão marcados com tinta preta, quando deveria ser com tinta vermelha!

 ___ Muito bem! Muito bem! __ gritaram todos alegres com a descoberta.

____. Abaixo a tinta preta! Viva a tinta vermelha!

   O oficial entra dentro do estabelecimento de novo e pede para o dono do estabelecimento trocar o mapa, expondo outro com os mesmos pontos marcados, mais com tinta vermelha.

   E assim foi feito, com muitas salvas de Palmas e gritos de vitória.

___Viva a República! ___berra um exaltado!

___ Viva! E a multidão se dispersa cantando o Hino Nacional.

                           

                                                                                                             Conto de Humberto de Campos

 

 

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Obrigada; Teresa Gomes

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