domingo, 4 de setembro de 2022

As Feridas Da Cidade

 

 

     Há um quarto de século, quando um homem do Nordeste, ou mesmo do Sul, desembarcava em Belém do Pará, sentia, se a definir, que ali havia alguma coisa de mais, ou de menos, que tornava a cidade mais alegre e emprestava ao transeunte uma grande tranquilidade. 

     Examinando o ambiente, não descobria o recém chegado a razão daquele sossego e bem estar e da confiança em si mesmo, que as palavras e os seus atos por si mesmo revelavam.

    De repente, porém, tentava um confronto audacioso entre a sua São Luiz e a sua Teresina, e Fortaleza e Natal, e Paraíba e Recife. E descobria, então, o segredo daquela diferença: a capital Paraense não tinha mendigos; em Belém do Pará ninguém estendia a mão à caridade Pública. 

 A próspera e poderosa cidade Amazônica possuía na verdade, desde o ano que elevou a chefia do Governo Municipal um ancião que se chamou Antônio Lemos, até o dia em que o derrubou e expulsou, o mais completo e perfeito serviço de Assistência Social que se tem visto no Brasil.

  Havia um Orfanato para as crianças desvalidas, estabelecimento modelo no seu gênero; e havia um Asilo de Mendigos e cuja porta o pobre ia bater, e a que eram conduzido se por ventura, na sua paixão pela liberdade na miséria, transgredia as posturas policiais, pedindo diretamente ao povo aquilo que ele oferecia por intermédio do Município.

  Obedecendo, ainda, a direção de Antônio Lemos, a Santa Casa de Belém, a melhor do Brasil naquele tempo, completava o aparelho Social destinado a corrigir a desigualdade e assegurar o bem estar a todos. 

  Não havia cegos pelas esquinas gemendo na sua viola triste as queixas de estômago e do coração. Nenhum transeunte deu de cara com um homem sem perna nas calçadas, e nenhuma criança se achava doente pelas ruas sem socorro.

  O que se via eram praças ajardinadas, bem cuidadas, avenidas cheias de árvores, parques numerosos, refrescadas por fontes cantantes, mas essas praças, essas avenidas e os parques, não custavam a fome de ninguém.

 Não se tirava o pão a um velho para criar no funcionalismo um lugar novo. Não se despia uma criança no Asilo para vestir com uma Bandeira um mastro de via Pública.

  Nas Santas Casas e Asilos não tinham lotação limitada. Eram casas do povo. Eram a mão fraterna, e cheia, que o povo que trabalha estendia ao povo que não tem pão.

  O Secretário da Prefeitura na vigência de dois Prefeitos, em Belém, habituados a esses cuidados e a essa manifestação permanente de solidariedade humana foi talvez para mim a maior surpresa ao desembarcar no Rio de Janeiro, aonde os mendigos perambulavas pelas ruas, cobertos de feridas, pedindo um pouco de comida aos ricos e abastados. 

   Onde o progresso da metrópole, que atira os seus lixos ao mar, enquanto Belém crema em poderosos fornos elétricos os detritos da cidade, evitando com isso, o contato da imundície e a propagação das epidemias.

  Há vinte anos, desde que cheguei ao Rio de Janeiro, a cidade ergueu se cercada de aranha céus, multiplicou as suas praias, dando mais conforto aos ricos. 

   Mas os mendigos continuam até nos dias de hoje a oferecer aos estrangeiros que aqui vem conhecer as nossas praias, a prova da nossa desorganização Social. E o lixo continua, como a vinte anos, como a trinta ou quarenta anos sendo atirados ao mar, sem nenhum tratamento de esgotos.

 Durante mais de um quarto de século os representantes do Distrito Federal falaram na Câmara. Discutiam eleições, atacavam governos, criticavam tudo, faziam barulhos, apenas para se recomendarem a um eleitorado sem ocupação, porque na verdade eles não tinham nenhum projeto construtivo, e nenhuma proposta para executarem uma obra pública.

   Nenhum serviço que não interessasse unicamente, exclusivamente, e individualmente ao seu eleitor!

 Prestes, pois a Polícia da Ditadura ao Rio de Janeiro, o serviço que ela jamais conseguiu dos seus homens sob o regime da Lei, e que esses homens jamais lhe prestarão quando esse regime voltar. Realize o jovem soldado a limpeza humana da Capital da República, a obra humanitária e benemérita que ela espera há quarenta anos.

 Ponha–se em suma, um pouco de compaixão aos pobres e faça algum projeto importante para essa cidade abandonada, antes que ela se torne um monturo de ruínas, um texto escrito há muito tempo, que continua muito atual, quase nada mudou.

 

                                                                                                     Texto: Humberto de Campos 

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Agradeço muito a sua visita, e deixe um comentário.
Obrigada; Teresa Gomes

Postagem em destaque

A Turma do Fundão

  A Turma do Fundão: Indisciplina ou um Novo Jeito de Aprender?    Durante décadas, a sala de aula foi organizada de forma quase simbólica: ...