Numa certa manhã, o povo começou a ajuntar muitos curiosos,
diante da vitrine de um estabelecimento comercial, em Recife.
O primeiro transeunte chegou, parou, olhou, involuntárias displicente. O segundo deteve, se para ver o que o primeiro estava olhando. Veio o terceiro, atraído pela atitude dos dois.
Outros foram chegando, para verem o que chegara primeiro o que havia na
vitrine, e até ficavam nas pontas dos pés, tamanho era a curiosidade. De súbito,
um dos que não estava enxergando absolutamente nada, indagou, aflito: __mas,
afinal, que é, gente?
___ É um desaforo! __informou um, que não tinha nada a dizer.
E para dizer alguma
coisa;
___ É um mapa de São Paulo, assinalando a posição das
Forças Federais. Pelo que se vê no mapa, os paulistas estão perdendo terreno.
___ É, mas é um insulto a Pernambuco!
___ Exclamou alguém. A essas palavras, um dos que não tinha
visto nada, gritou:
__ Fora o mapa! Quebre
a vitrina! Rasque o mapa!
O dono do estabelecimento,
mandou arriar com estrondo a porta de ferro, protegendo com ela o vidro do mostruário.
A multidão já se achava, porém, exaltada. Exaltada r acrescida. A rua estava
cheia, repleta de povo, do qual subia um barulho de oceano batido do vento.
__Fora o reacionário!
___gritava alguns.
A Policia, avisada,
ocorreu, para proteger a propriedade do dono do estabelecimento. O povo queria
uma reparação, e a Polícia deveria forçar o comerciante a dar uma satisfação a
multidão ali amontoada, pois elas estavam exigindo.
Um oficial desceu do
seu cavalo e penetrou dentro da livraria, e pediu que o comerciante desse uma
informação sobre o que estava acontecendo, e porque havia uma multidão parada
em frente ao seu estabelecimento, todos exaltados.
__Não sei, senhor
Capitão; juro que não sei. Eu tinha colocado um mapa de São Paulo na vitrine,
mostrando os pontos do Estado conquistados pelas armas Federais.
E não compreendo o
motivo de tanta indignação. Veja, o
senhor mesmo, o mapa que se achava em exposição.
O oficial examina a
carta geográfica, e não vê nada demais. Toma-a nas mãos, e chega à porta.
Desenrola-a, como se faz com a Verônica na procissão do Senhor Morto, para que
os presentes indiquem a particularidade porventura existente, ofensiva a
dignidade pública.
Mais os que ali estavam protestando em massa ainda não tinham
visto o mapa, e os que o tinham visto já tinham ido embora. Todos olhavam a
grande folha aberta, e não enxergavam nela qualquer motivo para gritos
sediciosos que estavam soltando há pouco. Afinal, um encontrou um pretexto.
____ É um desaforo_
gritou, com a alegria de Arquimedes descobrindo o peso dos corpos submersos. ____ É um desaforo!
E explicando –se:
___ Os pontos ocupados pelas Forças Federais estão marcados
com tinta preta, quando deveria ser com tinta vermelha!
___ Muito bem! Muito
bem! __ gritaram todos alegres com a descoberta.
____. Abaixo a tinta preta! Viva a tinta vermelha!
O oficial entra
dentro do estabelecimento de novo e pede para o dono do estabelecimento trocar
o mapa, expondo outro com os mesmos pontos marcados, mais com tinta vermelha.
E assim foi feito, com muitas salvas de Palmas e gritos de
vitória.
___Viva a República! ___berra um exaltado!
___ Viva! E a multidão se dispersa cantando o Hino Nacional.
Conto de Humberto de Campos

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